Pouca coisa existe mais rotineira que os cartões de Natal e Ano Novo. Ao longo da minha existência, claro que recebi inúmeros deles. Alguns, confesso, nem sempre um primor do bom gosto. Daí, Papais Noéis puxados por renas de purpurina, corações tridimensionais em seda, flechados e, até, alguns musicados com jingle bell. E também enviei, claro.
Com uma certa dose de nostalgia, posso testemunhar que vivi os tempos maravilhosos em que os cartões de boas festas escoltavam caixinhas de legítimos “scoth”, garrafas de vermute italiano, latinhas de caviar russo, cestas carregadas de especiarias típicas e estojos forrados de veludo vermelho com canetas e lapiseiras “made in Germany”.
Esses afáveis, calorosos brindes e lembranças faziam parte, digamos, de qualquer programa mínimo de relações públicas ou de boas maneiras. Hoje em dia é essa dura realidade que aí vemos: os cartões de boas festas foram minguando o afeto dos remetentes e eis que, agora, eles nos chegam, e quando chegam, secos e sucintos, quando muito limitados a uma gravurinha colorida legendada por uma ou outra frase de espírito bem armada. O mais, já vimos ano passado. E no retrasado.
De qualquer maneira é notável e edificante observar que as pessoas continuam fazendo questão de manter o costume essencial de desejar, umas às outras, prosperidade no Ano Novo. Alguns vão além dos votos, literalmente falando.
Este ano, por exemplo, um deputado fez questão de remeter-me (no meu endereço antigo, é claro), além do cartão de Boas Festas, um alentado volume de capa dura “para conhecimento dos caros e valorosos correligionários”. Uma coletânea com todos os seus discursos proferidos na legislatura, incluindo temas polêmicos, tais como, "o aproveitamento das folhas de beterraba na merenda escolar."
Mas o cartão que mais me sensibilizou, entretanto, chegou do interior. Num momento de clarividência política do remetente, um tal de Dr.Esupério – que, por sinal, nunca vi mais gordo – me augura prosperidade e votos para que eu inicie uma carreira de militante em seu partido. Com palavras originalíssimas do tipo “vencer ou vencer”, “soldado do partido” ou “convocação das bases”, promete fazer de tudo para que eu obtenha o apoio de um tal Corrêa, caso tenha pretensões políticas futuras. Como não conheço Dr.Esupério ou Corrêa algum...a não ser que...Bem, nesse caso – pensei com meus botões – seria melhor o apoio de partidários do bordão “meu nome é Enéas”. Pelo menos essa idéia não passaria mais que alguns segundos pela cabeça deles.
É claro que também não posso deixar sem registro um cartão remetido por um velho conhecido, dono de uma das melhores country chapelarias da cidade. Uma mensagem na qual se lê: “Em 2008, cubra-se!”. E arremata pedindo que “aproveite os últimos dias do ano comprando, com desconto especial, um modelito da grife Chore por Mim”. Tudo bem. Mas custava a chapelaria enviar-me um dos modelos para que eu, mercadologicamente falando, claro, pudesse avaliar a qualidade e o sucesso do produto num dos inúmeros cowboys meeting que se realizam pela cidade? Não, nada. Nem um miserável gorrinho recebi.
Os tempos estão mesmo mudados. Ou o espírito de Natal deixou mesmo de vagar por estas paragens. Mas o ano velho ainda não acabou e, por isso, não vejo razões para desânimo. Ainda acho que há tempo para chegar algum cartão extraviado dos caminhos postais. E certamente acompanhado de uma meia banda de leitoa magra, um cabrito tenro ou, até mesmo, quem sabe, um peru congelado? Sei que a esperança morre por último e que votos de prosperidade podem ser mais bem apreciados se forem rebustecidos por gestos práticos e atitudes concretas.
Droga! Afinal, quem se ofenderia se recebesse um Chianti de boa safra para brindar a chegada de um Novo Ano? Não digo isso por mim, deixo claro. Falo também em nome dos milhões de órfãos do obséquio, jogados à própria sorte sempre que alguma crise de tradição, para não dizer, pão-duragem, reduz as possibilidades de se auferir, pelo menos, um brindezinho mixuruca que seja.
E confesso que para esse tipo de coisa, sou uma pessoa de poucas ambições e desejos moderados. Em todo o caso, receber de presente de Natal ou Ano Novo uma simples vaquinha, dessas comuns, sem estirpe ou títulos de nobreza, já seria o bastante. Apenas uma vaca de úberes dispostos a atender aos gastos de uma família bem composta de filhos já criados. Podia ser uma vaquinha de olhar paciente e tranqüilo, modos discretos e personalidade bovina. Não tão grande que inviabilize acomodá-la no meu escritório, para que me sirva de vaca inspiradora e, nem tão pequena, para que cause algum “frisson’ e inveja aos que não têm o privilégio de possuir uma vaca urbana.
Na verdade, essa vaca do Ano Novo me livraria da condenação de todos os dias ter que entrar na fila e apanhar meu rotineiro leite na padaria da esquina.
Pelo menos nesse período de Natal eu ficaria livre daquela maldita caixinha dos balconistas, recoberta por papel alumínio e que me intimida ao desprendimento pecuniário, com agradecimentos e votos de um Feliz Natal e Próspero Ano Novo.
Meu abraço e um 2008 legal pra todos!


